A disputa pelo Governo do Estado não trouxe grandes surpresas. Jorginho Mello (PL) foi reeleito ainda no primeiro turno, com expressivos 68,98% dos votos válidos, o equivalente a 2.942.386 votos. Muito atrás apareceu Gelson Merísio (PSB), com 15,66%.
Mais do que uma vitória, o resultado representou uma vantagem esmagadora e deixou evidente a escolha do eleitor catarinense pela continuidade do atual projeto político no comando do Estado.
No Senado Federal, porém, a história foi diferente.
Santa Catarina tinha duas cadeiras em disputa, e a corrida se concentrou principalmente em três nomes: Carol de Toni (PL), Carlos Bolsonaro (PL) e Esperidião Amin (PP).
Carol de Toni confirmou sua força eleitoral e terminou na liderança, com 33,46% dos votos, correspondentes a 2.694.918 votos. Carlos Bolsonaro alcançou 25,35%, com 2.041.840 votos, enquanto Esperidião Amin terminou com 15,31%, ou 1.233.034 votos.
E aqui talvez esteja um dos primeiros grandes recados das urnas.
Esperidião Amin é um dos nomes mais tradicionais da política catarinense. Sua trajetória atravessa décadas e inclui passagens pelo Governo do Estado, Prefeitura de Florianópolis, Câmara dos Deputados e Senado Federal. Ainda assim, o eleitor catarinense optou por outros dois nomes.
Independentemente da avaliação política que se faça dos vencedores, o resultado transmite uma mensagem difícil de ignorar: tradição, experiência e décadas de vida pública já não são suficientes, por si só, para garantir uma cadeira.
As urnas pediram mudança.
Mas a análise fica ainda mais interessante quando chegamos às eleições para deputado federal e deputado estadual.
Isso porque, diferentemente das eleições para governador e senador, nas quais prevalece a votação majoritária, deputados são escolhidos pelo sistema proporcional.
Na prática, não basta observar quem recebeu mais votos individualmente. Primeiro, a votação obtida pelo partido ou federação ajuda a determinar quantas cadeiras aquela legenda poderá conquistar. Depois, essas vagas são distribuídas entre seus candidatos, observadas as regras eleitorais.
É exatamente por isso que a lista dos eleitos nem sempre corresponde à lista dos candidatos mais votados do Estado.
Em outras palavras: o eleitor não elege apenas um candidato. Seu voto também contribui para a força eleitoral da legenda.
E o resultado de 2026 deixa isso particularmente evidente.
Candidatos com votações expressivas ficaram de fora enquanto outros, com menos votos individuais, conquistaram uma cadeira graças ao desempenho eleitoral de seus partidos ou federações.
Não se trata de irregularidade ou distorção do resultado: é justamente a lógica do sistema proporcional brasileiro. Mas isso não torna o fenômeno menos interessante do ponto de vista político.
Em determinadas legendas, candidatos de votação extraordinária ajudam a elevar a força eleitoral de todo o grupo e, consequentemente, aumentam as possibilidades de eleição de outros integrantes da mesma chapa.
É o popularmente chamado efeito de “puxar a legenda”.
E poucos números demonstram isso tão bem quanto os resultados catarinenses de 2026.
OS 16 DEPUTADOS FEDERAIS ELEITOS POR SANTA CATARINA
1º Júlia Zanatta (PL) – 560.223 votos
2º Ana Paula Lima (PT) – 201.377 votos
3º Professor Pedro Uczai (PT) – 164.389 votos
4º Jair Bolsonaro (PL) – 131.555 votos
5º Sargento Lima (PL) – 128.333 votos
6º Pezenti (MDB) – 125.010 votos
7º Gilson Marques (NOVO) – 117.197 votos
8º Giovana Mondardo (PCdoB) – 114.792 votos
9º Julio Garcia (PSD) – 114.391 votos
10º Daniela Reinehr (PL) – 96.253 votos
11º Zé Milton (PP) – 93.005 votos
12º Paulinha (PODE) – 92.598 votos
13º Zé Trovão (PL) – 89.830 votos
14º Ricardo Guidi (PL) – 78.698 votos
15º Daniel Freitas (PL) – 76.458 votos
16º Geovania de Sá (Republicanos) – 74.603 votos
A primeira coisa que chama atenção é a votação de Júlia Zanatta.
Com 560.223 votos, ela não apenas foi a deputada federal mais votada de Santa Catarina: abriu uma distância de quase 359 mil votos para a segunda colocada, Ana Paula Lima.
O resultado também ajuda a compreender a força alcançada pelo PL na disputa proporcional. Dos 16 deputados federais eleitos por Santa Catarina, sete são do PL.
Ou seja, 43,75% de toda a bancada catarinense na Câmara dos Deputados será formada por parlamentares do mesmo partido.
Mas há outro dado revelador: se a eleição fosse simplesmente uma corrida entre os 16 candidatos individualmente mais votados do Estado, a composição da bancada seria diferente.
É justamente aí que aparece a força das legendas.
Alguns candidatos eleitos não estavam necessariamente entre os 16 mais votados de Santa Catarina, mas conquistaram a cadeira porque estavam inseridos em partidos ou federações que conseguiram vagas pelo sistema proporcional.
Portanto, olhar apenas para a votação nominal não conta toda a história desta eleição.
Em 2026, houve candidatos que venceram nas urnas individualmente e candidatos que venceram também pela força coletiva de suas legendas.
E NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA?
O mesmo fenômeno aparece — e de maneira ainda mais evidente — na eleição para as 40 cadeiras da Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Os eleitos foram:
1º Ana Campagnolo (PL) – 387.523 votos
2º Luciane Carminatti (PT) – 124.590 votos
3º Sérgio Guimarães (União) – 87.761 votos
4º Lucas Neves (Republicanos) – 82.706 votos
5º Dr. Vicente (União) – 79.663 votos
6º Guilherme Colombo (PL) – 76.041 votos
7º Fernando Krelling (MDB) – 70.506 votos
8º Mauro de Nadal (MDB) – 65.369 votos
9º Marquito (PSOL) – 65.199 votos
10º Massocco (PL) – 64.805 votos
11º Camilo Martins (PL) – 63.933 votos
12º Jessé Lopes (PL) – 61.781 votos
13º Clesio Salvaro (PSD) – 58.480 votos
14º Pepê Collaço (PP) – 57.470 votos
15º Carlos Humberto (PL) – 55.486 votos
16º Oscar Gutz (PL) – 51.953 votos
17º Osmar Teixeira (PODE) – 48.994 votos
18º Jean Volpato (PT) – 48.204 votos
19º Delegado Ulisses Gabriel (PL) – 48.130 votos
20º Altair Silva (PP) – 46.919 votos
21º Marcos da Rosa (PL) – 46.523 votos
22º Jerry Comper (MDB) – 45.603 votos
23º Maurício Peixer (PL) – 44.158 votos
24º Juliana Maciel (PL) – 43.142 votos
25º Sorgatto (PL) – 42.513 votos
26º Wilian Tonezi (PL) – 42.342 votos
27º Tiago Zilli (MDB) – 41.548 votos
28º Bruno Souza (PL) – 40.327 votos
29º Chica do Eskudlark (PL) – 39.929 votos
30º Fabio Botelho (PODE) – 39.164 votos
31º Marcius Machado (PL) – 37.061 votos
32º Fabiano da Luz (PT) – 35.029 votos
33º Mario Motta (PSD) – 34.977 votos
34º Napoleão Bernardes (PSD) – 34.949 votos
35º Neodi Saretta (PT) – 34.841 votos
36º Sergio Motta (Republicanos) – 33.758 votos
37º Padre Pedro (PT) – 33.304 votos
38º Odair Tramontin (NOVO) – 32.134 votos
39º Rodrigo Minotto (PDT) – 27.918 votos
40º Anna Carolina (Republicanos) – 25.647 votos
Novamente, o topo da lista chama atenção.
Ana Campagnolo recebeu 387.523 votos.
Para dimensionar o tamanho dessa votação, a segunda colocada, Luciane Carminatti, recebeu 124.590.
A diferença entre as duas ultrapassa 262 mil votos.
É uma votação individual de enorme peso dentro de uma eleição proporcional e, consequentemente, também representa força para sua legenda na disputa pelas cadeiras.
Na outra ponta da tabela, encontramos candidatos eleitos com pouco mais de 25 mil, 27 mil, 32 mil ou 33 mil votos.
Isso não significa que suas eleições sejam menos legítimas. Significa apenas que eles não chegaram à Assembleia exclusivamente pela comparação de suas votações individuais com as dos demais candidatos do Estado. Chegaram dentro de um sistema em que a força eleitoral do partido ou federação também é determinante.
E é justamente por isso que algumas candidaturas com votação superior podem terminar como suplentes, enquanto outras, numericamente menos votadas, conquistam mandato.
O RECADO DAS URNAS
Para além da matemática eleitoral, entretanto, existe uma mensagem política bastante clara nos resultados catarinenses de 2026.
Santa Catarina votou por mudança — mas não necessariamente por uma mudança ideológica.
Jorginho Mello foi reconduzido ao Governo com quase 69% dos votos. Portanto, não houve rejeição ao projeto político predominante no Estado.
O que houve foi algo diferente: uma renovação de nomes dentro de um campo político que continua demonstrando enorme força em Santa Catarina.
A derrota de Esperidião Amin para o Senado é talvez o símbolo mais evidente disso.
Ao mesmo tempo, votações extraordinárias como as de Júlia Zanatta e Ana Campagnolo demonstram a consolidação de novas lideranças eleitorais no Estado.
O PL sai das urnas não apenas com o governador reeleito e as duas cadeiras catarinenses no Senado, mas também com a maior bancada catarinense na Câmara dos Deputados e presença expressiva na Assembleia Legislativa.
Portanto, o eleitor catarinense não parece ter pedido uma mudança de direção.
Pediu uma mudança de protagonistas.
E talvez essa seja a principal mensagem deixada pelas urnas em 2026.
O eleitor demonstrou que história política, mandato, estrutura partidária e décadas de vida pública continuam tendo peso — mas já não representam

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