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Domingo, 18 de Janeiro de 2026

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Maduro nem precisa falar e já causa pânico a políticos latinos

A simples possibilidade de uma delação já mudou o cálculo de governos em toda a América Latina. O silêncio não protege ninguém

Maduro nem precisa falar e já causa pânico a políticos latinos
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Desde a captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, algemados a bordo do USS Iwo Jima e depois levados a Nova York, uma pergunta passou a circular em círculos diplomáticos: e se Maduro delatar? E se ele entregar nomes, documentos, transações? E se apontar presidentes, ex-presidentes, ministros? A pergunta é legítima –mas apenas parcialmente correta.

Porque Maduro nem precisa delatar. A simples possibilidade de que ele delate já mudou o jogo. Já alterou negociações comerciais, posicionamentos diplomáticos, cálculos de sobrevivência política. A hipótese de uma delação é a arma.

Países que condenaram a invasão da Venezuela, como o Brasil, a Colômbia e o México, fizeram declarações de princípio. Defenderam a soberania, o direito internacional, a não intervenção. Mas agora enfrentam um dilema que não existia há 4 dias. A simples possibilidade de uma delação muda o cálculo de qualquer negociação comercial, qualquer posicionamento diplomático, qualquer votação em organismo multilateral.

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O governo dos Estados Unidos não precisa de uma delação consumada para usar a ameaça de uma delação. Basta que a possibilidade exista para que países latino-americanos se vejam pressionados a escolher entre a defesa de princípios e a autopreservação. E ela existe.

A subserviência não precisa ser declarada. Pode ser negociada em silêncio, em troca de garantias de que certos nomes não serão mencionados, certas investigações não serão abertas, certas acusações não serão formalizadas. Maduro nem precisa abrir a boca. A possibilidade de que ele abra já é suficiente.

E há um efeito imediato que nenhuma diplomacia conseguirá reverter. O Brasil assistiu à 1ª incursão militar norte-americana na América do Sul desde a ajuda dos EUA ao golpe de Estado no Chile em 1973. O Brasil já perdeu sua condição de líder regional. Não impediu a operação. Não articulou resposta coletiva. Não liderou coalizão para condenar o ato de maneira eficaz. O Brasil não tem mais voz regional. Fala quase sozinho. 

A hipótese já mudou o presente. Maduro, calado ou falante, já cumpriu sua função. Há um detalhe na operação de captura que passou quase despercebido: os americanos fizeram questão de levar Cilia Flores junto com Maduro. A mulher do presidente venezuelano também foi formalmente acusada pelo Departamento de Justiça.

Segundo Pam Bondi, chefe do órgão, ambos “deverão responder pelas acusações no Tribunal do Distrito Sul de Nova York”.

Cilia Flores é, portanto, mais do que uma alavanca de pressão. Também é ré. Maduro não negocia apenas sua própria liberdade. Negocia a liberdade da mulher. Se resistir, ela será julgada, condenada. Se colaborar, ela pode ser liberada, deportada, poupada. Os norte-americanos têm 2 prisioneiros de alto valor, não 1 apenas. E a pressão sobre Maduro para colaborar aumenta exponencialmente quando a liberdade de sua mulher também está em jogo.

Maduro, portanto, não enfrenta apenas a escolha entre falar e calar. Enfrenta a escolha entre proteger a si mesmo e proteger a mulher. É uma pressão que multiplica todas as outras. A essa altura, o leitor provavelmente pode duvidar: Maduro delatar? O herdeiro de Hugo Chávez (1954-2013), o líder da revolução bolivariana, o homem que por uma década desafiou Washington? Impossível. Ele morreria antes de trair os seus. Foi exatamente o que os venezuelanos disseram sobre Hugo Carvajal.

O HOMEM QUE FALOU

Mas se a hipótese já é arma, por que a delação em si ainda importa? Porque há precedente: Hugo Carvajal. Hugo Armando Carvajal Barrios, o “El Pollo”, não era um funcionário qualquer. Era o chefe da inteligência militar da Venezuela. Por quase uma década, sob Hugo Chávez, ele foi o guardião dos segredos do regime —cada operação clandestina, cada transferência ilícita, cada acordo obscuro passava por suas mãos ou por seu conhecimento. Carvajal sabia tudo. Era considerado intocável.

Na Venezuela chavista, ninguém imaginava que El Pollo pudesse “virar a casaca”. Ele era o sistema. Era o homem que, se quisesse, poderia destruir reputações, derrubar ministros, comprometer presidentes. Por isso mesmo, acreditava-se, jamais falaria. Era leal demais para trair. Em 25 de junho de 2025, diante do juiz Alvin K. Hellerstein em Nova York, Carvajal se declarou culpado de 4 crimes: conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de armas de fogo e conspiração para posse de armas. As acusações, somadas, poderiam resultar em múltiplas sentenças de prisão.

A confissão de Carvajal foi um cálculo de sobrevivência. E o que ele revelou antes e depois dessa confissão mostra o que Maduro pode (se quiser, se precisar) revelar. Carvajal se declarou culpado em 25 de junho de 2025. E 6 meses depois, Maduro foi capturado. A proximidade das datas cria suspeita. Não se sabe oficialmente se as informações que ele forneceu às autoridades americanas tiveram papel direto no planejamento da operação que capturou Maduro. Mas a coincidência é difícil de ignorar.

O Departamento de Justiça norte-americano descreveu a admissão de culpa de Carvajal como participação no Cartel de Los Soles, uma organização criminosa composta por militares venezuelanos de alta patente que usavam o aparato estatal para enviar toneladas de cocaína ao exterior. O mesmo cartel do qual Maduro foi acusado de liderar pelo atual governo norte-americano. Mais grave: Carvajal confessou que suas ações visavam a beneficiar as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), designadas pelos EUA como organização terrorista estrangeira. A confissão de “narcoterrorismo” foi o que permitiu aos americanos enquadrar o regime chavista como ameaça à segurança hemisférica. É sob essa mesma rubrica, o narcoterrorismo, que Maduro foi capturado.

MALAS, VOOS, DINHEIRO

Antes de ser extraditado para os Estados Unidos, Carvajal passou anos detido na Espanha, onde os norte-americanos haviam formalizado o pedido de extradição. Durante esse período, deu entrevistas e escreveu um livro. Nele, foi além das confissões de narcotráfico. Alegou às autoridades espanholas que o governo venezuelano financiou ilegalmente movimentos e líderes de esquerda em diversos países por pelo menos 15 anos, usando dinheiro público e fundos ilícitos para exportar a “revolução bolivariana”. Os nomes citados: Luiz Inácio Lula da Silva, Néstor Kirchner, Evo Morales, Fernando Lugo, Ollanta Humala e Gustavo Petro.

Mas Carvajal não se limitou a nomes. Ele descreveu métodos. E um desses métodos não era fantasioso. Já havia sido flagrado antes, em Buenos Aires, em 2007. Na madrugada de 4 de agosto daquele ano, o empresário venezuelano Guido Antonini Wilson desembarcou no Aeroparque Jorge Newbery com uma mala contendo US$ 790.550 em espécie, não declarados. Viajava num jato fretado pela estatal argentina Enarsa (Energía Argentina Sociedad Anónima), vindo de Caracas. A mala foi apreendida. O escândalo explodiu. Antonini, pressionado, acabou colaborando com o FBI e declarou que o dinheiro era “para a campanha presidencial” de Cristina Kirchner. 

O caso ficou conhecido como “maletagate” ou “valijagate”. Mas a dimensão real só veio à tona em outubro de 2021, quando Carvajal, já detido na Espanha, revelou à Justiça que aquele voo era havia sido o 21º de uma série. Cada um dos 20 voos anteriores havia transportado aproximadamente US$ 1 milhão. Total: US$ 21 milhões em dinheiro vivo, transportados em malas, em voos oficiais ou fretados, para financiar campanhas eleitorais na Argentina. 

Carvajal alegou que “valijas” diplomáticas, voos oficiais, malas de dinheiro vivo foram usados para financiar líderes em toda a América Latina. As alegações de Carvajal não são hipóteses isoladas. Já há provas documentadas de que Maduro pessoalmente entregava malas de dinheiro. Em maio de 2017, a delação premiada de Mônica Moura —mulher e sócia do marqueteiro João Santana— revelou detalhes explosivos sobre a campanha de reeleição de Chávez em 2012.

O contato inicial foi feito diretamente por Lula e o caso foi rememorado na reportagem “João Santana e Mônica Moura receberam US$ 10 milhões de Maduro”, publicada em 4 de janeiro de 2026. O ex-deputado federal e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT) organizava as viagens do casal para Caracas, em jatinhos oferecidos pela empreiteira Andrade Gutierrez. A Odebrecht e a Andrade pagaram parte dos valores. Mas a parte mais reveladora veio do próprio Maduro.

Mônica descreveu o procedimento: um carro blindado com 2 carros de escolta a buscava no hotel. Ela entrava pela garagem, subia ao gabinete de Maduro na chancelaria (em 2012 ele era ministro das Relações Exteriores de Hugo Chávez), fazia “conversa fiada” por alguns minutos, e então recebia as malas das mãos de Maduro. Eram US$ 500 mil numa semana, US$ 300 mil na seguinte e até um pagamento de US$ 800 mil de uma vez só. Ao longo de quase 9 meses, Mônica calcula ter recebido mais de US$ 10 milhões em espécie, entregues pessoalmente por Maduro na chancelaria e no Palácio de Miraflores (sede da presidência da Venezuela). Quando indagada se Maduro pagaria a quantia combinada, a frase de Mônica ecoa: “A minha garantia era Lula”. 

A NATUREZA DO CRIME

Até aqui, as alegações de Carvajal tratavam de corrupção e financiamento ilegal de campanhas. Crimes graves, certamente, mas de natureza distinta do narcotráfico e do terrorismo. A defesa padrão dos acusados sempre foi: “O dinheiro vinha da PDVSA [Petróleos de Venezuela S.A.], do petróleo venezuelano. Era dinheiro sujo, sim, mas não era dinheiro de drogas”.

A confissão de Carvajal em junho de 2025 mudou essa equação. Ele admitiu que o regime venezuelano operava em parceria com o narcotráfico. Que o Cartel de Los Soles usava o aparato estatal para enviar cocaína para mercados no exterior. Que as Farc eram beneficiárias diretas dessas operações.

E se o dinheiro que chegava em malas a Buenos Aires, a La Paz, a Brasília, não viesse apenas do petróleo? E se parte desse dinheiro viesse do narcotráfico? A pergunta é explosiva porque muda a natureza jurídica do crime. Receber financiamento ilegal de campanha de uma estatal petroleira é corrupção. Receber dinheiro proveniente de narcotráfico é lavagem de dinheiro do tráfico —e, dependendo do enquadramento, pode ser narcoterrorismo. Se Maduro delatar que dinheiro enviado ao Brasil veio, no todo ou em parte, de operações de narcotráfico, Lula poderia ser classificado como narcoterrorista pelos Estados Unidos?

A resposta tecnicamente é: depende das provas. Mas politicamente é: depende da vontade de Washington. 

FONTE/CRÉDITOS: M
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