O ano de 2026 começa sob forte pressão para o setor produtivo brasileiro e já sinaliza a possibilidade de um novo recorde de recuperações judiciais, segundo avaliação de especialistas consultados.
Na análise do advogado Filipe Denki, especialista em Direito e Reestruturação Empresarial, o cenário atual é resultado de um acúmulo de fragilidades financeiras ao longo dos últimos anos.
“Entramos em 2026 com empresas mais fragilizadas, descapitalizadas e com menor capacidade de reação. A queda gradual dos juros não é suficiente para reverter, no curto prazo, o estrangulamento do caixa que vem se acumulando há anos”, afirma.
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Para o especialista, dados mais recentes reforçam esse diagnóstico. Em janeiro de 2026, o Brasil registrava 8,7 milhões de empresas negativadas, indicando um nível elevado de inadimplência corporativa. Esse quadro dá continuidade ao movimento observado em 2025, quando 2.466 empresas recorreram à recuperação judicial (o maior número da série histórica).
Para o advogado Raoni Sales de Barros, especialista em Direito Empresarial, a combinação de fatores econômicos torna o ambiente especialmente desafiador.
“A combinação de crédito caro, aumento de custos e baixa previsibilidade econômica cria um cenário em que muitas empresas simplesmente não conseguem mais sustentar suas operações sem recorrer à reestruturação. Em 2026, a recuperação judicial tende a deixar de ser alternativa e passar a ser necessidade”, explica.
Pressão macroeconômica e choque externo
Os especialistas destacam que, mesmo com a Selic projetada para encerrar 2026 em torno de 12,25%, o custo do crédito ainda permanece elevado para empresas endividadas. Além disso, a maior cautela dos bancos, especialmente em ano eleitoral, reduz o acesso a financiamento.
Outro fator relevante em 2026 é o impacto do cenário internacional, com a recente alta do petróleo pressionando custos logísticos e produtivos no Brasil. Esse efeito em cadeia atinge diretamente setores como indústria e agronegócio, ampliando a compressão das margens.
“Esse tipo de choque externo agrava um ambiente que já era delicado. As empresas passam a enfrentar aumento de custos sem conseguir repassar integralmente ao consumidor”, observa Denki.
Recordes sucessivos indicam crise estrutural
A trajetória recente das recuperações judiciais, segundo os especialistas, evidencia o caráter estrutural da crise:
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2023: 1.405 pedidos;
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2024: 2.273 pedidos;
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2025: 2.466 pedidos.
Mesmo com a expansão do número de empresas ativas no país, o crescimento consistente dos pedidos acima da média histórica demonstra que a deterioração financeira vai além de um efeito estatístico.
“Não estamos diante de um fenômeno pontual. É uma deterioração progressiva das condições de operação das empresas no Brasil”, avalia Denki.
Agropecuária no centro da crise
Entre os setores mais impactados, especialistas apontam a agropecuária como o principal destaque em 2026. O segmento, historicamente resiliente, passou a liderar os pedidos de recuperação judicial, refletindo a combinação de custos elevados, volatilidade cambial e riscos climáticos.
“A entrada do agronegócio nesse volume de recuperações judiciais mostra que a crise atingiu setores que antes funcionavam como pilares de estabilidade econômica”, destaca Raoni Sales.
Apesar do aumento expressivo das recuperações judiciais, os pedidos de falência seguem em queda. Para os especialistas, isso indica uma mudança de comportamento no mercado, com maior foco na tentativa de preservação das empresas.
Ainda assim, há ressalvas. “Muitas empresas chegam à recuperação judicial já sem capacidade efetiva de reestruturação, o que limita as chances de sucesso do processo”, pondera Denki.
A avaliação dos especialistas é de que 2026 deve consolidar a tendência de alta nas recuperações judiciais, com possibilidade de novos recordes ao longo do ano. Entre os principais fatores de risco, destacam-se:
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manutenção de juros em patamar elevado;
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crédito seletivo;
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alta inadimplência corporativa;
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incerteza política e econômica.
“O grande desafio será distinguir quais empresas são viáveis e podem ser recuperadas e quais já não têm mais sustentabilidade econômica. Esse será um ponto central em 2026”, conclui Sales de Barros.

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